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Tradutor

online-tradutorQuando, na tradução, se manifesta o parentesco entre
as línguas, isso dá-se de modo diferente do da vaga
semelhança entre imitação e original. É, aliás, óbvio que não
tem necessariamente de existir semelhança no parentesco.
Também nisto o conceito de parentesco coincide neste

contexto com o do seu uso mais restrito, uma vez que, em
ambos os casos, não pode ser definido pela identidade da
descendência, apesar de o conceito de descendência continuar
a ser imprescindível para a determinação daquele uso mais
restrito. – Em que plano podemos então encontrar o
parentesco entre duas línguas, para lá do parentesco
histórico? Tão pouco na semelhança de duas obras literárias
como na das suas palavras. O parentesco supra-histórico
entre línguas reside antes no facto de, em cada uma delas
como um todo, se querer dizer uma e a mesma coisa,
qualquer coisa que, no entanto, não é acessível a nenhuma
delas isoladamente, mas apenas à totalidade das suas
intencionalidades que se complementam umas às outras: à
língua pura. De facto, enquanto todos os elementos isolados –
as palavras, as frases, os contextos – de línguas estranhas
umas às outras se excluem, essas línguas completam-se nas
suas próprias intencionalidades. Para compreender com
exactidão esta lei, uma das leis fundamentais da filosofia da
linguagem, é necessário distinguir, nessa intencionalidade, o
que se quer dizer (das Gemeinte) do modo como se quer
dizer (die Art des Meinens). Nas palavras “Brot” e “pain” o
que se quer dizer é o mesmo, mas não o modo de o querer
dizer. É devido a esse modo de querer dizer que ambas as
palavras significam coisas diferentes para um Alemão e um
Francês, que elas não são permutáveis, que, em última
análise, tendem para a exclusão mútua; e é por via do que
querem dizer que elas, tomadas em absoluto, significam algo
que é o mesmo e idêntico. Destarte, os modos do querer dizer
nestas duas palavras contrariam-se um ao outro, mas
completam-se nas duas línguas de onde elas provêm. E nelas
esse modo de querer dizer completa-se para convergir naquilo
que se quer dizer. Nas línguas isoladas, sem complemento, o
que nelas se quer dizer nunca se encontra numa autonomia
relativa, como acontece com as palavras ou frases isoladas,
mas sempre em permanente mudança, até conseguir emergir,

sob a forma da língua pura, da harmonia de todos os modos
do querer dizer. Até aí, permanece oculto nas línguas. Mas se
estas crescem deste modo até ao fim messiânico da sua
história, é a tradução que se inflama na eterna sobre-vida das
obras e na infinita renovação da vida das línguas, para
continuamente pôr à prova aquele crescimento sagrado das
línguas – para determinar a que distância o que nelas é oculto
se encontra da revelação e como isso se pode tornar presente
no saber dessa distância.
Isto, porém, equivale a admitir que toda a tradução é
apenas uma forma, de algum modo provisória, de nos
confrontarmos com a estranheza das línguas. Outra solução
para esta estranheza, que não seja temporária e provisória,
uma solução instantânea e definitiva, está vedada ao homem,
ou pelo menos ele não pode aspirar a ela directamente. Mas
de forma indirecta é o crescimento das religiões que permite
que nas línguas germine a semente escondida de uma língua
superior. A tradução, diferentemente da arte, apesar de não
poder aspirar à durabilidade das suas criações, não renuncia a
orientar-se no sentido de um último, definitivo e decisivo
estádio do trabalho criativo na linguagem. Nela, o original
sobe até uma atmosfera linguística por assim dizer mais alta e
mais pura, na qual, é certo, não poderá viver eternamente –
como nem sequer a alcança em todos os momentos da obra –,
mas para a qual aponta pelo menos, de forma milagrosamente
acutilante, como para essa região prometida e inalcançada da
reconciliação e da plenitude das línguas. Nunca alcançará de
forma total essa região, mas nela está aquilo que, numa
tradução, é mais do que mera informação. Se quisermos
definir com mais rigor esse cerne essencial, poderemos dizer
que ele é aquilo que na tradução é, por sua vez, intraduzível.
Poderemos extrair dela tanta substância meramente
informacional
quanto
quisermos
e
traduzi-la;
mas
permanecerá sempre um resto intocável, no sentido do qual
se orientou o trabalho do verdadeiro tradutor. Esse resto não

é transmissível como o é a palavra poética do original, porque
a relação entre conteúdo e linguagem é totalmente diferente
no original e na tradução. Se no primeiro caso ela é
comparável á unidade formada por fruto e casca, já a
linguagem da tradução envolve os seus conteúdos como com
um manto real caindo em amplas pregas. E isto acontece
porque ela significa uma língua mais elevada do que ela, e por
isso, na relação com os seus próprios conteúdos, permanece
desajustada, forçada e estranha. Esta disjunção impede toda
a transposição, e ao mesmo tempo torna-a desnecessária.
Toda a tradução de uma obra situada num momento dado da
história da língua representa, no que se refere a um
determinado aspecto do seu conteúdo, os de todas as
restantes línguas. A tradução transplanta, assim, o original
para um domínio linguístico que, nesta medida – e
ironicamente –, é mais definitivo, uma vez que não poderá
ser deslocado daí por mais nenhuma tradução, mas pode
apenas ser elevado até esse domínio repetidamente e em
novos aspectos. Não é por acaso que neste contexto a palavra
“ironicamente” evoca os autores românticos e alguns dos seus
processos de pensamento. Estes, mais do que outros, tiveram
a percepção da vida das obras, de que a tradução é um
testemunho dos mais importantes. É certo que eles mal
reconheceram a tradução, tendo antes voltado toda a sua
atenção para a crítica, que constitui também um momento,
ainda que menos relevante, da sobre-vida das obras. Mas, se
a sua teoria pouco se interessou pela tradução, já as suas
grandiosas obras de tradução nunca deixaram de ser
acompanhadas por um sentido apurado da essência e da
dignidade desta forma. Esse sentido – e tudo aponta para aí –
não tem necessariamente de estar mais presente no poeta,
talvez até o seu lugar seja mais diminuto nele enquanto
poeta. Nem a história confirma o habitual preconceito
segundo o qual os mais importantes tradutores seriam
poetas, e os poetas menores tradutores medíocres. Há uma
série de grandes nomes, como Lutero, Voß,5 Schlegel, que
foram muito mais importantes como tradutores do que como
poetas, enquanto outros entre os maiores, como Hölderlin e
George,6 dada a amplitude da sua obra, não são subsumíveis
apenas no conceito de poeta, em especial se os virmos como
tradutores. Pois, do mesmo modo que a tradução é uma
forma própria, assim também a tarefa do tradutor tem a sua
especificidade e deve distinguir-se claramente da do poeta.
Essa tarefa consiste em encontrar a intencionalidade,
orientada para a língua da tradução, a partir da qual nesta é
despertado o eco do original. Nisto reside uma das
características que distinguem a tradução da obra poética,
porque a intencionalidade daquela não visa nunca a língua
como tal, a sua totalidade, mas apenas, e de forma imediata,
determinadas conexões linguísticas a nível dos conteúdos. A
tradução nunca se vê, como a criação poética, por assim dizer
no interior da floresta da língua, mas fora dela; perante ela e
sem nela entrar, ela atrai o original para o seu interior, para
aquele lugar único onde o eco é capaz de fazer ouvir, na sua
própria língua, a ressonância da obra na língua estrangeira. A
sua intencionalidade não visa apenas qualquer coisa de
diferente da da literatura original, nomeadamente uma língua
na sua totalidade, a partir de uma única obra de arte numa
língua estrangeira; ela própria, enquanto tal, é totalmente
diferente: a intencionalidade do poeta é ingénua, primeira,
intuitiva, a do tradutor derivada, última, ideativa. E isto
porque o grande motivo que preenche o seu trabalho é o de
uma integração das várias línguas numa única e verdadeira.
Esse trabalho, porém, é aquele no qual, de facto, as frases
isoladas, as obras, os juízos críticos nunca se encontrarão – já
que estão dependentes da tradução –, mas no qual as
próprias línguas coincidem umas com as outras, completadas
e reconciliadas no modo do seu querer dizer. Mas se, de
alguma outra forma, existe uma língua da verdade na qual se
conservam, sem tensões e silenciosos, os últimos mistérios
que constituem o objecto de todo o pensamento, então essa
língua da verdade é – a verdadeira língua. E é precisamente
essa língua, em cujo pressentimento e descrição reside a
única perfeição a que o filósofo pode aspirar, que está oculta,
de forma intensiva, nas traduções. Não existe musa da
filosofia, nem também da tradução. Mas elas não são coisa
trivial, como pretendem certos artistas sentimentais, pois
existe um ingenium filosófico cuja marca mais própria é a
nostalgia daquela língua que se anuncia na tradução.
Les langues imparfaites en cela que plusieurs, manque la suprême:
penser étant écrire sans accessoires, ni chuchotement mais tacite
encore l’immortelle parole, la diversité, sur terre, des idiomes <n’>
empêche personne de proférer les mots qui, sinon se trouveraient, par
une frappe unique, elle-même matériellement la vérité.7
Se a realidade para que remetem estas palavras de
Mallarmé for plenamente apreensível pelo filósofo, então a
tradução, com os seus gérmens de uma tal língua, situa-se a
meio caminho entre a poesia e a doutrina. As suas obras têm
um perfil menos nítido, mas não se inserem de forma menos
profunda na história.
Se a tarefa do tradutor surge a esta luz, os caminhos da
sua solução correm o risco de se ensombrarem de forma cada
vez mais impenetrável. Esta tarefa – levar à maturidade, na
tradução, a semente de uma língua pura – parece, em boa
verdade, ser insolúvel, não determinável qualquer que seja a
solução. Pois não ficará ela sem fundamento a partir do
momento em que a restituição do sentido deixa de ser
determinante? Vista negativamente, é esta a significação de
tudo o que se disse antes. Fidelidade e liberdade – liberdade
da reconstituição de acordo com o sentido e, ao seu serviço,
fidelidade à palavra – são os conceitos tradicionais em toda a
discussão sobre a tradução. Mas eles parecem já não poder
servir a uma teoria que busca na tradução outra coisa que
não a reconstituição do sentido. No seu uso mais corrente,
estes conceitos são sempre vistos como parte de uma
dicotomia insolúvel. De facto, que pode a fidelidade,
precisamente ela, fazer pela reconstituição do sentido? A
fidelidade na tradução da palavra isolada quase nunca
consegue dar plenamente o sentido que ela tem no original,
porque este não se esgota, na sua significação poética
original, naquilo que se quer dizer, mas adquire-a
precisamente pela forma como o que se quer dizer se articula
com o modo do querer dizer nessa palavra. Costuma
expressar-se esta ideia através da fórmula que diz que as
palavras transportam consigo conotações afectivas. A simples
literalidade na transposição da sintaxe vira completamente do
avesso qualquer reconstituição de sentido, ameaçando
mesmo levar à absoluta incompreensão. Para o século XIX, as
traduções de Sófocles por Hölderlin eram o melhor exemplo
da monstruosidade de uma tal literalidade. Compreende-se
assim facilmente como a fidelidade na reconstituição da forma
dificulta a do sentido. Assim sendo, a exigência da literalidade
não pode ser derivada do interesse em preservar o sentido. É
a liberdade desregrada dos maus tradutores que serve essa
exigência, muito mais do que serve a poesia e a linguagem.
Essa exigência, cuja justificação é óbvia, mas cujas razões
estão muito escondidas, terá então, necessariamente, de ser
compreendida a partir de um contexto mais adequado. Por
exemplo: tal como os cacos de um vaso, para se poderem
reajustar, têm de encaixar uns nos outros nos mais pequenos
pormenores, embora não precisem de ser iguais, assim
também a tradução, em vez de querer assemelhar-se ao
sentido do original, deve antes configurar-se, num acto de
amor e em todos os pormenores, de acordo com o modo de
querer dizer desse original, na língua da tradução, para assim
tornar ambos, original e tradução, reconhecíveis como
fragmentos de uma língua maior, tal como os cacos são os
fragmentos do vaso inteiro. Por isso mesmo ela deve
prescindir em alto grau da intenção de comunicar alguma
coisa, do sentido; o original só é essencial para ela na medida
em que dispensa o tradutor e a sua obra do esforço e da
disciplina de dar expressão aos conteúdos a comunicar.
Também no domínio da tradução se aplica o lema: εν αρχη ην
ο λογος, ao princípio era o verbo. Por outro lado, a sua língua
pode e deve mesmo, no que respeita ao sentido, ser pouco
cuidada, para fazer ressoar a intentio do original, não como
reconstituição, mas como harmonia, como complemento na
língua em que ela se expressa, como a forma própria da sua
intentio. Por esta razão, não constitui grande louvor para uma
tradução, sobretudo na época em que surge, o dizer-se dela
que se lê como um original da sua língua. Pelo contrário: o
significado da fidelidade, cujo garante é a literalidade, é o da
grande nostalgia pela complementaridade de linguagem, a
que a obra deve dar voz. A verdadeira tradução é
transparente, não esconde o original, não lhe tapa a luz, mas
permite que a língua pura, como que reforçada pelo seu
próprio meio de expressão, incida de forma ainda mais plena
sobre o original. Isso consegue-se sobretudo pela literalidade
na transposição da sintaxe, que mostra como o elemento
primordial do tradutor é a palavra e não a frase: a frase é o
muro diante da língua do original, e a literalidade uma arcada.
Se a fidelidade e a liberdade desde sempre foram vistas
como tendências opostas, também esta interpretação mais
profunda de uma delas não parece reconciliar as duas, mas,
pelo contrário, negar todos os direitos à outra. Qual é, de
facto, a referência da liberdade, a não ser a reconstituição de
um sentido que deixe de ser lei? No entanto, se o sentido de
uma criação linguística pode ser equacionado como idêntico
ao da informação que veicula, o facto é que lhe resta ainda,
para lá de toda a informação, algo de definitivo e decisivo,
muito perto e infinitamente longe, oculto sob ele ou mais
evidente, por ele fragmentado ou impondo-se como mais
poderoso. Em toda a linguagem e nas suas criações resta,
para lá do que é comunicável, um não-comunicável, um
simbolizante e um simbolizado, dependente do contexto em
que se situa. Simbolizante, apenas nas criações finitas das
línguas; mas simbolizado no próprio devir das línguas. E
aquilo que, no devir das línguas, busca a sua representação, e
mesmo a sua configuração material, é o próprio âmago da
língua pura, de que atrás se falou. Mas se este, ainda que
oculto ou fragmentado, na vida está presente sob a forma do
próprio simbolizado, nas criações da linguagem habita apenas
sob forma simbolizante. Se aquela essência última, que é a
própria língua pura, se liga, nas línguas, apenas ao material
de linguagem e às suas transmutações, já nas criações da
linguagem ela está presa a um sentido, pesado e estranho. E
a tradução é aquele meio, poderoso e único, capaz de libertar
a língua pura do peso do sentido, de transformar o
simbolizante no próprio simbolizado, de recuperar a língua
pura, esteticamente configurada, para o movimento da
linguagem. Nesta língua pura, que já não quer dizer nem
exprime nada, mas é, enquanto palavra não-expressiva e
criadora, aquilo que todas as línguas querem dizer, toda a
informação, todo o sentido e toda a intencionalidade
convergem num plano em que estão destinados a extinguir-
se. E é precisamente nele que se confirma a liberdade da
tradução, com uma nova e mais elevada legitimação. Esta
liberdade não deve a sua existência ao sentido da informação
– o sentido da fidelidade é precisamente o de a emancipar
dele. Pelo contrário, a liberdade afirma-se na língua própria
tendo em vista a língua pura. A tarefa do tradutor é a de
redimir na língua própria aquela língua pura que se exilou nas
alheias, a de a libertar da prisão da obra através da recriação
poética. Por ela, o tradutor quebra as barreiras apodrecidas
da sua língua: Lutero, Voß, Hölderlin, George expandiram as
fronteiras da língua alemã. – Aquilo que, seguindo esta linha
de pensamento, resta ao sentido na questão da relação da
tradução com o original pode ser compreendido através de
uma comparação. Tal como a tangente toca a circunferência
levemente e apenas num ponto, do mesmo modo que é esse
contacto, mas não o ponto, que lhe dita a lei que guiará a sua
trajectória rectilínea até ao infinito, assim também a tradução
toca o original ao de leve, e apenas naquele ponto
infinitamente pequeno do sentido, para seguir na sua órbita
própria à luz de uma lei que é a da fidelidade na liberdade do
movimento da linguagem. O verdadeiro significado desta
liberdade foi caracterizado, sem propriamente o nomear nem
fundamentar, por Rudolf Pannwitz8 em algumas considerações
que se encontram n’ A Crise da Cultura Européia e que,
juntamente com os comentários de Goethe nas notas ao Divã
Ocidental-Oriental,9 constituirão provavelmente o que de
melhor se escreveu na Alemanha sobre a teoria da tradução.
Aí se pode ler:
As nossas versões, mesmo as melhores, partem de um falso princípio:
pretendem germanizar o indiano, o grego, o inglês, em vez de
indianizar, helenizar, anglicizar o alemão. Revelam uma veneração
muito maior pelos usos linguísticos domésticos do que pelo espírito da
obra estrangeira… O erro fundamental de quem traduz é o de fixar o
estado da língua própria, que é obra do acaso, em vez de a fazer
entrar num movimento intenso por intervenção da língua estrangeira.
Ele deve, mais ainda se traduzir de uma língua muito distante, recuar
até aos elementos primordiais da própria língua, lá onde palavra,
imagem e sonoridade se confundem. Tem de alargar e aprofundar a
sua língua através da língua estrangeira. Não se imagina até que
ponto isso é possível, até que limite uma língua se pode transformar,
como as línguas se distinguem quase só como os dialectos. Mas é claro
que isto só é assim se encararmos as línguas verdadeiramente a sério,
e não levianamente.
Até que ponto uma tradução é capaz de corresponder à
essência desta forma, isso é determinado objectivamente pela
tradutibilidade do original. Quanto menos valor e dignidade a
sua língua tiver, quanto mais ela for informação, menos há a
ganhar na tradução, até que o total predomínio desse sentido,
muito longe de servir de alavanca para uma tradução
formalmente perfeita, acabará por fazê-la malograr. Quanto
mais elevada for a forma de uma obra, tanto mais ela será
traduzível, ainda que a tradução aflore apenas ao de leve o
seu sentido. Isto aplica-se, evidentemente, apenas aos
originais. As traduções, pelo contrário, revelam ser
intraduzíveis, não pelo peso do sentido, mas pela enorme
leveza que ele nelas assume. A versões de Hölderlin, em
particular as das tragédias de Sófocles, são a melhor
confirmação deste e de todos os outros aspectos essenciais da
questão. Nelas a harmonia das línguas é tão profunda que o
sentido só é tocado pela língua como uma harpa eólica pelo
vento. As traduções de Hölderlin são arquétipos (Urbilder) da
sua forma: elas estão para as mais perfeitas versões daqueles
textos como o arquétipo está para o modelo (Vorbild), como
mostra a comparação das traduções da terceira ode pítica de
Píndaro por Hölderlin e Borchardt.10 Por isso mesmo lhes é
inerente, mais do que a outras, o enorme perigo, ameaça
original de todas as traduções: que os portões de uma língua
assim alargada e dominada se fechem, encerrando o tradutor
no silêncio. As traduções de Sófocles foram a última obra de
Hölderlin. Nelas, o sentido precipita-se de abismo em abismo,
até ameaçar perder-se no sem-fundo das profundezas da
língua. Mas existe um ponto de paragem e atenção (ein
Halten), que, no entanto, só o texto sagrado pode garantir:
nele, o sentido deixou de ser a linha de separação entre a
torrente da língua e a torrente da revelação. Se o texto
pertencer, de forma não mediatizada, sem a mediação do
sentido e pela sua literalidade, à língua verdadeira, à verdade
ou à doutrina, existirá nele uma tradutibilidade de princípio.
Agora já não em função de si mesmo, mas apenas das
línguas. Na relação com ele exige-se à tradução uma
confiança tão ilimitada que, no plano desta literalidade e
liberdade, sob a forma da versão interlinear, a língua e a
revelação terão necessariamente de se conjugar sem tensões,
como no texto original. Na verdade, todos os grandes textos,
e em mais alto grau os sagrados, contêm nas entrelinhas a
sua tradução virtual. A versão interlinear do texto sagrado é o
arquétipo ou o ideal de toda a tradução.

tradutor-online-gratisSe é verdade que fidelidade e liberdade na tradução
desde sempre foram consideradas tendências contraditórias,
mesmo essa interpretação mais profunda de uma parece não
ser capaz de conciliá-las a ambas; pelo contrário, parece
retirar toda a legitimidade da outra. Pois, a que se refere a
liberdade senão à restituição do sentido, que deverá cessar de
ser normativa? Só se for lícito equiparar o sentido de uma
construção de linguagem ao de sua comunicação, é que
restará, para além de qualquer aspecto comunicativo –
pertíssimo dele e infinitamente longe, velado por ele ou
aparecendo mais claramente, fraturado por ele ou ainda mais
potente – algo de último e decisivo. Em todas as línguas e em
suas construções resta, para além do elemento comunicável,
um elemento não-comunicável, um elemento – dependendo
do contexto em que se encontra – simbolizante ou
simbolizado. Simbolizantes são apenas os que se encontram
nas construções finitas das línguas; simbolizados, os que
estão no devir das próprias línguas. E o que busca expor-se, e
mesmo, constituir-se no devir das línguas é o próprio cerne
da pura língua. Se este cerne, oculto ou fragmentário, todavia
está presente na vida como o próprio simbolizado, nas
construções de linguagem ele reside somente enquanto
simbolizante. E se, por um lado, essa última essencialidade
que constitui a pura língua mesma está vinculada apenas ao
material lingüístico e suas transformações, por outro, ela

também vem carregada em suas construções com o sentido
grave e estranho. Desvinculá-la desse sentido, transformar o
simbolizante no próprio simbolizado, recobrar a pura língua
plasmada no movimento da linguagem – esse é o único e
grandioso poder da tradução. No interior dessa pura língua
que nada mais designa e que nada mais expressa, mas que
enquanto palavra criadora sem expressão é o designado em
todas as línguas, toda comunicação, todo significado e toda
intenção atingem finalmente um mesmo estrato, no qual
estão destinados a extinguir-se. E nele precisamente a
liberdade da tradução consolida para si um direito novo e
superior. Não é do sentido da comunicação (emancipar-se
dele é justamente a tarefa da fidelidade) que a liberdade
extrai sua razão de ser. Antes, a liberdade assevera-se, em
nome da pura língua, com relação à própria língua e na
própria língua. Redimir na própria a pura língua, exilada na
estrangeira, liberar a língua do cativeiro da obra por meio da
recriação – essa é tarefa do tradutor. Por ela, o tradutor
rompe as barreiras apodrecidas da própria língua: Lutero,
Voss, Hölderlin, George ampliaram as fronteiras do alemão.
Sendo assim, o que resta de significativo para o sentido na
relação entre tradução e original pode ser apreendido num
símile: da mesma forma com que a tangente toca a
circunferência de maneira fugidia e em um ponto apenas,
sendo esse contato, e não o ponto, que determina a lei
segundo a qual ela continua sua via reta para o infinito, a
tradução toca fugazmente e apenas no ponto infinitamente
pequeno do sentido do original, para perseguir, segundo a lei
da fidelidade, sua própria via no interior da liberdade do
movimento da língua. O verdadeiro significado dessa
liberdade foi caracterizado por Rudolf Pannwitz – se bem que
sem nomeá-la nem fundamentá-la – em considerações que se
encontram no seu Crise da Cultura Européia e que,
juntamente com as frases de Goethe nas notas ao Divã
Oriental-Ocidental, podem ser consideradas possivelmente o

que de melhor se publicou na Alemanha sobre teoria da
tradução. Segundo Pannwitz:
Nossas traduções (mesmo as melhores) partem de um falso princípio,
elas querem germanizar o sânscrito, o grego, o inglês, ao invés de
sanscritizar, grecizar, anglicizar o alemão. Elas possuem um respeito
muito maior diante dos próprios usos lingüísticos do que diante do
espírito da obra estrangeira… O erro fundamental de quem traduz é
apegar-se ao estado fortuito da própria língua, ao invés de deixar-se
abalar violentamente pela língua estrangeira. Sobretudo quando
traduz de uma língua muito distante, ele deve remontar aos elementos
últimos da própria língua, onde palavra, imagem e som se tornam um
só; ele tem de ampliar e aprofundar sua língua por meio do elemento
estrangeiro; não se tem idéia em que medida isso é possível, até que
ponto cada língua pode se transformar, e uma língua se diferencia de
outra quase que só como um dialeto de outro dialeto, e não são
tomadas de modo demasiado leviano, mas precisamente quando
tomadas em todo seu peso.
Determina-se objetivamente até que ponto uma
tradução é capaz de corresponder à essência dessa forma,
pela traduzibilidade do original. Quanto menor o valor e a
dignidade de sua língua, quanto mais ela se constituir
enquanto comunicação, tanto menos a tradução tem a
ganhar, até que o primado daquele sentido, longe de
constituir a alavanca de uma tradução formalmente acabada,
a faça malograr. Quanto mais elevada a qualidade de uma
obra, tanto mais ela permanecerá – mesmo no contato mais
fugidio com o seu sentido – ainda traduzível. Isso vale
naturalmente apenas para os originais. Traduções, ao
contrário, demonstram–se intraduzíveis – não por sua
gravidade, mas devido à excessiva fugacidade com que o
sentido adere a elas. Disso, bem como de qualquer outro
ponto de vista essencial, são uma confirmação as traduções
de Hölderlin, especialmente as das duas tragédias de
Sófocles. Nelas, a harmonia das línguas é tão profunda que o
sentido só é tocado pela língua como uma arpa eólia pelo
vento. As traduções de Hölderlin são arquétipos de sua forma;
elas se comportam, mesmo com relação às mais acabadas

traduções dos mesmos textos, como o arquétipo em relação
ao modelo, como demonstra a comparação entre as traduções
de Hölderlin e de Borchardt da terceira Ode Pítica de Píndaro.
Precisamente por isso reside nelas, mais do que em outras, o
monstruoso perigo originário de toda tradução: que se fechem
as portas de uma língua tão dominada e expandida,
encerrando o tradutor no silêncio. As traduções de Sófocles
foram a última obra de Hölderlin. Nelas, o sentido precipita-se
de abismo em abismo, até arriscar perder-se no sem-fundo
das profundezas da língua. Mas há uma pausa. Entretanto, ela
não é asseverada por nenhum outro texto, senão pelo texto
sagrado, no qual o sentido cessou de constituir o divisor de
águas entre o fluxo da língua e o fluxo da revelação. Lá onde
o texto, diretamente, sem mediações, sem a intermediação
de um sentido, pertencer, em sua literalidade, à língua
verdadeira, à verdade, à teoria ou à doutrina, ele é por
definição traduzível. Certamente, não mais em seu próprio
nome, mas unicamente em nome das línguas. Diante disso,
requer-se da tradução uma confiança tão ilimitada que, assim
como no texto língua e revelação se unificaram, na tradução
literalidade e liberdade devem obrigatoriamente unir-se, sem
tensões, na forma da versão justalinear. Pois todos os
grandes escritos contêm, em certa medida– em mais alto
grau, porém, os escritos sagrados – a sua tradução virtual
entre as linhas. A versão justalinear do texto sagrado é o
arquétipo ou ideal de toda tradução.

Tradutor

Em caso algum a preocupação com o destinatário se revela
fecunda para o conhecimento de uma obra de arte ou de uma
forma artística. E é assim não apenas porque toda a relação
com um público determinado ou com os seus representantes
corresponde a um desvio, mas também porque até o conceito
de destinatário “ideal” é nefasto em toda a reflexão no âmbito
da teoria da arte, porque a função desta última é tão somente
a de pressupor a existência e a essência do homem em geral.
A própria arte pressupõe a existência corpórea e espiritual do
homem – mas em nenhuma das suas obras a sua atenção. De
facto, nenhum poema se destina ao leitor, nenhum quadro ao
observador, nenhuma sinfonia aos ouvintes.
Destinar-se-á uma tradução aos leitores que não
entendem o original? Isto parece suficiente para explicar a
diferença de nível entre ambas as coisas no plano artístico.
Para além disso, parece também ser a única razão possível
para o facto de alguém dizer “a mesma coisa”, repetindo-a.
Que coisa “diz”, afinal, uma obra literária? Sobre que
realidade informa? Diz e informa muito pouco àquele que a
compreende. O que nela há de essencial não é da ordem da
informação [comunicação: Mitteilung] nem do enunciado. E
no entanto, uma tradução que pretendesse servir de meio de
comunicação não poderia fazer passar mais do que a
informação – ou seja, algo de inessencial. E esta é, de facto, a
marca inconfundível das más traduções. Mas aquilo que uma
obra literária contém, para lá da informação – e até o mau
tradutor reconhece que é isso o essencial –, não será
precisamente o que nela há de inapreensível, de misterioso,
de “poético”? Algo que o tradutor apenas pode reconstituir se
também ele… criar uma obra poética? Daqui advém uma
segunda característica das más traduções, que se poderia
definir como a transmissão imprecisa de um conteúdo

inessencial. E a tradução fica-se por aí enquanto se propuser
servir o leitor. Mas se ela estivesse destinada ao leitor,
também o original o deveria estar. Ora, se o original não
existe em função dele, como se poderá então compreender a
tradução a partir de uma relação com o leitor?
A tradução é uma forma. Para a apreender enquanto tal,
é necessário regressar ao original, pois nele reside a lei da
tradução, contida na sua tradutibilidade (Übersetzbarkeit). A
questão da possibilidade de tradução (Übersetzbarkeit) de
uma obra tem um duplo sentido. Em primeiro lugar, importa
saber se entre a totalidade dos seus leitores a obra
encontrará um dia um tradutor à sua altura; depois, e com
maior propriedade, se ela, de acordo com a sua essência,
permite a tradução e assim – a condizer com a importância
atribuída àquela forma – também a exige. Em princípio, a
resposta à primeira pergunta só pode ser de natureza
problemática, a resposta à segunda é apodíctica. Só o
pensamento superficial, negando o sentido autónomo da
segunda, poderia considerar as duas perguntas como
idênticas. Contra tal pensamento, convém lembrar que alguns
conceitos relacionais ganham o seu sentido adequado, e
talvez mesmo melhor, se não forem desde logo referidos
exclusivamente ao homem. Poderia, assim, falar-se de uma
vida ou de um momento inesquecível, ainda que todos os
homens os tivessem esquecido. Se, por exemplo, a sua
essência exigisse que eles não fossem esquecidos, aquele
predicado não conteria nada de falso, mas apenas uma
exigência a que os homens não podem corresponder, e ao
mesmo tempo a referência a um domínio em que essa
correspondência se estabeleceria: o de uma memória de
Deus. De acordo com isto, deveria considerar-se a
tradutibilidade de configurações de linguagem, mesmo nos
casos em que elas se revelassem intraduzíveis aos homens. E,
tendo em vista um conceito rigoroso de tradução, não
deveriam elas ser de facto traduzíveis, até um certo limite? –

Esta dissociação constitui o quadro no qual se deveria colocar
a questão de saber se se deveria exigir a tradução de
determinadas configurações de linguagem. Aqui aplica-se o
princípio: se a tradução é uma forma, então a tradutibilidade
tem de ser intrinsecamente essencial a determinadas obras.
A tradutibilidade é essencialmente inerente a certas
obras – o que não quer dizer que a sua tradução seja
essencial para elas, mas antes que uma determinada
significação inerente aos originais se manifesta na
possibilidade de eles serem traduzidos. É evidente que uma
tradução, por melhor que seja, nunca poderá significar nada
para o original. Apesar disso, ela entra numa conexão íntima
com este, devido à sua tradutibilidade. E essa conexão é
ainda mais íntima pelo facto de nada significar já para o
original. Podemos chamar-lhe uma conexão natural, mais
exactamente uma conexão vital. Tal como as manifestações
de vida se relacionam da forma mais íntima com o vivo sem
significarem nada para ele, assim também a tradução nasce
do original – de facto, não tanto da sua vida, mas da sua
“sobrevivência” (Überleben). Com efeito, a tradução vem
depois do original e assinala, nas obras mais significativas,
que nunca encontram o seu tradutor de eleição na época do
seu nascimento, o estádio da sua sobre-vida (Fortleben). A
ideia da vida e da sobre-vida das obras de arte deve ser
entendida num sentido totalmente objectivo e não-metafórico.
Até nas épocas em que o pensamento esteve mais preso a
preconceitos se intuiu que a vida não podia ser atribuída
apenas à corporeidade orgânica. Mas a questão não é a de,
sob o fraco ceptro da alma, alargar o seu domínio, como
tentou Fechner;4 e muito menos a vida pode ser definida a
partir de momentos ainda menos normativos da animalidade,
como a sensação, que só acidentalmente a pode caracterizar.
Pelo contrário, só se fará justiça ao conceito de vida quando

ela for reconhecida em tudo aquilo de que existe uma história,
e que não seja apenas seu cenário. Pois em última análise o
âmbito da vida é determinável a partir da história e não da
natureza, e muito menos de uma natureza tão instável como
a sensação e a alma. Daí que a tarefa do filósofo seja a de
compreender toda a vida natural a partir dessa outra, mais
vasta, que é a da história. E não é a sobre-vida das obras
incomparavelmente mais fácil de reconhecer do que a das
criaturas? A história das grandes obras de arte conhece a sua
descendência das fontes, a sua configuração estética na época
do artista e o período da sua sobre-vida, por princípio eterna,
nas gerações subsequentes. A essa vida póstuma, sempre
que vem à luz do dia, chama-se fama. As traduções que são
mais do que meios de transmissão de conteúdos nascem
quando, na sobre-vida de uma obra, esta atinge o seu período
áureo. Por isso, elas não servem apenas a obra, como os
maus tradutores costumam reclamar para o seu trabalho,
mas devem-lhe antes a sua própria existência. Nelas, a vida
do original alcança o seu desenvolvimento último, mais amplo
e sempre renovado.
Este desenvolvimento, próprio de uma vida singular e
elevada, é determinado por uma finalidade singular e elevada.
Vida e finalidade – a sua conexão, aparentemente evidente e
no entanto quase se furtando ao conhecimento, manifesta-se
apenas quando aquele fim para o qual trabalham todas as
finalidades particulares da vida for procurado, não na esfera
que é própria à vida, mas numa outra, mais elevada. Todas
as manifestações de vida com uma finalidade, tal como a sua
finalidade em geral, são em última análise adequadas aos
seus fins, não em função da vida, mas em função da
expressão da sua essência, da representação da sua
significação. Assim, a tradução tem por finalidade dar
expressão à relação mais íntima das línguas umas com as
outras. Ela própria não tem possibilidades de revelar ou de
produzir essa relação oculta; mas pode, isso sim, representá-

la, levando-a à prática de forma embrionária e intensiva. Ora,
esta representação de uma realidade significada por meio de
uma tentativa embrionária de a produzir constitui um modo
de representação extremamente original, praticamente
impossível de encontrar no domínio da vida não linguística.
Esta conhece, de facto, outros tipos de referenciação,
analógicos e sígnicos, diferentes da actualização in-tensiva,
isto é, antecipatória e alusiva. – Mas aquela relação muito
íntima entre as línguas, em que estamos a pensar, é a de
uma convergência original, que consiste em as línguas não
serem estranhas umas às outras, mas sim, a priori e sem
pensar agora em todas as relações históricas, aparentadas
umas com as outras naquilo que querem dizer.
Com esta tentativa de explicação, porém, a nossa
reflexão parece ir desaguar de novo na teoria tradicional da
tradução, depois de se ter metido por desvios sem finalidade.
Se aquilo que tem de afirmar-se na tradução é o parentesco
entre as línguas, como poderia ela fazê-lo a não ser através
da transmissão, o mais exacta possível, da forma e do sentido
do original? É certo que aquela teoria não saberia como dizer
em que consiste esta exactidão, não estaria, pois, em
condições de dar conta do que é essencial numa tradução. E
no entanto uma tradução é um testemunho muito mais
profundo e exacto daquele parentesco entre as línguas do que
a semelhança superficial e indefinível entre duas obras
literárias. Para apreender a autêntica relação entre original e
tradução teremos de encetar uma reflexão cujo propósito é
em tudo análogo à argumentação pela qual a crítica do
conhecimento demonstra a impossibilidade de uma teoria da
imitação. Nesta, mostra-se que no processo de conhecimento
não poderia haver objectividade, nem sequer a pretensão
disso, se ele consistisse em captar cópias do real; do mesmo
modo podemos demonstrar que nenhuma tradução seria
possível se a sua aspiração, a sua essência última, fosse a da
semelhança com o original. Pois o original transforma-se ao

longo da sua sobre-vida, que não poderia ter este nome se
não fosse uma transmutação e renovação do vivo. Até as
palavras cujo significado foi fixado estão sujeitas a um
processo de maturação. Aquilo que terá sido, na época de um
autor, a tendência da sua linguagem poética pode
desaparecer mais tarde, tendências imanentes podem voltar a
emergir, sob forma nova, do texto acabado. Aquilo que antes
era novo pode depois soar a gasto, o que antes era corrente
pode mais tarde ter ressonâncias arcaicas. Procurar o
essencial de tais transformações, tal como das mudanças,
também constantes, do sentido, na subjectividade dos que
vêm depois e não na vida mais própria da língua e das suas
obras, corresponderia – mesmo aceitando o mais cru
psicologismo – a confundir os fundamentos e a essência da
coisa; para ser mais rigoroso, equivaleria a negar, por
debilidade do pensar, um dos mais poderosos e fecundos
processos históricos. E mesmo que quiséssemos transformar
a última palavra do autor no golpe de misericórdia da obra,
isso não salvaria ainda aquela teoria morta da tradução. Se o
tom e a significação dos grandes textos se alteram totalmente
no decorrer dos séculos, também a língua materna do
tradutor muda. Acontece mesmo que a palavra poética pode
sobreviver na sua língua, enquanto que até a maior das
traduções está destinada a desaparecer no processo de
crescimento da respectiva língua, a ser absorvida no devir da
sua renovação. A tradução está tão longe de ser a equação
muda entre duas línguas mortas que, entre todas as formas,
a sua marca mais própria é a de ter de dar atenção àquele
processo de maturação da palavra estrangeira e às dores de
parto da palavra própria.

Tradutor-onlineSe na tradução a afinidade entre as línguas se anuncia,
isso ocorre de uma forma diversa do que pela vaga
semelhança entre reprodução e original. Como também é
evidente,
em
geral,
que
afinidade
não
implica
necessariamente semelhança. É também nessa medida que,
neste contexto, o conceito de afinidade está em consonância
com seu emprego mais restrito, na medida em que nenhum
dos dois casos ele pode ser definido de maneira satisfatória
através de uma identidade de ascendência, muito embora o
conceito de ascendência permaneça indispensável para a
definição daquele emprego mais restrito. Onde deve se buscar
a afinidade entre duas línguas, abstraindo de um parentesco
histórico? Certamente não na semelhança entre obras poética,
nem tampouco na semelhança entre suas palavras. Toda
afinidade meta-histórica entre as línguas repousa sobre o fato
de que, em cada uma delas, tomada como um todo, uma só e
a mesma coisa é designada; algo que, no entanto, não pode
ser alcançado por nenhuma delas, isoladamente, mas
somente na totalidade de suas intenções reciprocamente
complementares: na pura língua. Pois enquanto todos os
elementos isolados – as palavras, frases, nexos sintáticos –
das línguas estrangeiras se excluem, essas línguas se
complementam em suas intenções mesmas. Compreender
com exatidão essa lei (uma das fundamentais da filosofia da
linguagem) significa diferenciar, na intenção, o designado do
modo de designar. Em “Brot” e “pain” o designado é o
mesmo; mas o modo de designar, ao contrário, não o é. Está
implícito, pois, no modo de designar o fato de que ambas as
palavras possuem diferentes significações, para um alemão e
para um francês, respectivamente, que para eles elas não são
intercambiáveis e que, aliás, em última instância, almejem
excluir-se mutuamente; quanto ao objeto designado, porém,
tomadas em termos absolutos, elas significam a mesma e
idêntica coisa. De tal forma, o modo de designar nessas duas
palavras se opõe, ao passo que ele se complementa nas duas
línguas às quais elas pertencem. E o que de fato se
complementa nelas é o modo de designar convertido naquilo
que é designado. Pois nas línguas tomadas isoladamente,
incompletas, aquilo que nelas é designado nunca se encontra
de maneira relativamente autônoma, como nas palavras e
frases isoladas; encontra-se em constante transformação, até
que da harmonia de todos aqueles modos de designar ele
consiga emergir como pura língua. Até então, permanece
oculto nas línguas. Entretanto, se elas evoluírem de tal forma
até o fim messiânico de sua história, será à tradução – que se
inflama na eterna continuação da vida das obras e no infinito
reviver das línguas – que tocará questionar aquela sacra
evolução das línguas: A que distância está da revelação aquilo
que elas ocultam? Em que medida pode, sabendo-se dessa
distância, o elemento oculto tornar-se presente?
Com isso, admite-se evidentemente que toda tradução é
apenas um modo de alguma forma provisório de lidar com a
estranheza das línguas. Uma solução não temporal e
provisória para essa estranheza, uma solução instantânea e
definitiva, permanece vedada aos homens, ou pelo menos não
pode ser aspirada diretamente. Indiretamente, contudo, a
evolução das religiões é a responsável pelo amadurecimento
do sêmen velado de uma língua mais superior. Portanto, a
tradução, embora não possa pretender que suas obras
perdurem – e nisso diferencia-se da arte – não nega seu
direcionamento a estágio último, definitivo e decisivo de toda
estrutura de linguagem. Na tradução o original evolui, cresce,
alçando-se a uma atmosfera por assim dizer mais elevada e
mais pura da língua, onde, naturalmente, não poderá viver
eternamente, como está longe de alcançá-la em todas as
partes de sua figura, mas à qual no mínimo alude de modo
maravilhosamente penetrante, como o âmbito predestinado e
interdito da reconciliação e da plenitude das línguas. Jamais o
original o alcança até a raiz, integralmente: mas nele está
tudo aquilo que numa tradução ultrapassa a mera
comunicação. Em termos mais precisos, pode-se definir esse
núcleo essencial como aquilo que numa tradução não pode
ser retraduzido. Subtraia-se da tradução o que se puder em
termos de informação e tente-se traduzi-lo; ainda assim,
restará intocável no texto aquilo a que se dirigia o trabalho do
verdadeiro tradutor. Não é traduzível como a palavra poética
do original, pois a relação do conteúdo com a língua é
completamente diversa no original e na tradução. Pois, se no
original eles formam uma certa unidade, como a casca com o
fruto, na tradução, a língua recobre seu conteúdo em amplas

pregas, como um manto real. Pois ela significa uma línguamais elevada do que ela própria é, permanecendo com issoinadequada a seu próprio conteúdo – grandiosa e estranha.Essa quebra impede qualquer ulterior transposição e aomesmo tempo a torna dispensável. Pois cada tradução deuma obra representa, a partir de um determinado período dahistória da língua e relativamente a determinado aspecto deseu conteúdo, tal período e tal aspecto em todas as outraslínguas. A tradução transplanta, portanto, o original para umâmbito – ironicamente – mais definitivo da língua, maisdefinitivo ao menos na medida em que o original não poderámais ser transferido dali para parte alguma por nenhumaoutra tradução; poderá somente ir sendo elevado para dentrodele, começando sempre de novo e em outras partes. Não poracaso, a palavra “ironicamente” faz lembrar reflexões dosromânticos. Antes de outros, eles possuíram uma consciênciada vida das obras da qual a tradução é o mais altotestemunho. Sem dúvida, eles mal a reconheceram enquantotal, dirigindo toda a sua atenção à crítica literária, a qualtambém representa um momento, ainda que menor, nacontinuação da vida das obras. Embora sua teoriapraticamente não tenha visado a tradução, sua própria grandeobra de tradutores implicava uma sensibilidade para com aessência e a dignidade dessa forma. Ao que tudo indica, essasensibilidade não tem necessariamente de ser mais forte nopoeta; talvez nele, poeta, ela tenha justamente menosespaço. Nem mesmo a história sugere o preconceitoconvencional, segundo o qual os tradutores importantesseriam poetas e poetas insignificantes, tradutores menores.Muitos dos grandes, como Lutero, Voss, Schlegel, sãoincomparavelmente mais importantes como tradutores do quecomo poetas, e outros, dentre os maiores, como Hölderlin eGeorge, não podem ser compreendidos em toda abrangênciade sua criação unicamente sob o conceito de poeta. E aindamenos como tradutores. Pois assim como a tradução é uma forma própria, também a tarefa do tradutor pode ser
entendida como uma tarefa própria, podendo ser diferenciada
com precisão da do poeta.
Essa tarefa consiste em encontrar na língua para a qual
se traduz a intenção, a partir da qual o eco do original é nela
despertado. Aqui está um traço que distingue tradução e obra
poética, pois a intenção desta jamais se dirige à língua
enquanto tal, à sua totalidade, mas única e imediatamente, a
determinadas relações lingüísticas de conteúdo. Mas a
tradução não se vê, como a obra literária, por assim dizer,
mergulhada no interior da mata da linguagem, mas vê-se fora
dela, diante dela e, sem penetrá-la, chama o original para que
adentre aquele único lugar, no qual, a cada vez, o eco é capaz
de reproduzir na própria língua a ressonância de uma obra da
língua estrangeira. Sua intenção não só se dirige a algo
diverso da obra poética, isto é, a uma língua como um todo,
partindo de uma obra de arte isolada, escrita numa língua
estrangeira; mas sua própria intenção é outra: a intenção do
escritor é ingênua, primeira, intuitiva; a do tradutor,
derivada, última, ideativa. Pois o grande tema da integração
das várias línguas em uma única, verdadeira, é o que
acompanha o seu trabalho. Essa língua, porém, em que
frases, obras e juízos isolados jamais se entendem, razão pela
qual permanecem dependentes de tradução é aquela na qual,
entretanto, as línguas coincidem entre si, completas e
reconciliadas no seu modo de designar. Contudo, se, de fato,
existir uma língua da verdade, na qual estão guardados sem
tensão e mesmo silenciosamente os últimos segredos que o
pensamento se esforça por perseguir, então essa língua da
verdade é a verdadeira língua. E é precisamente esta, em
cujo pressentimento e descrição se encontra a única perfeição
pela qual o filósofo pode esperar, que se encontra
intensamente oculta nas traduções. Não existe uma musa da
filosofia; nem existe uma musa da tradução. Entretanto, elas
não são banalidades, como querem alguns saltimbancos

sentimentais. Pois há um engenho filosófico, cujo mais íntimo
desejo é alcançar aquela língua que se anuncia na tradução:
Les langues imparfaites en cela que plusieurs, manque la suprême:
penser étant écrire sans accessoires, ni chuchotement mais tacite
encore l’immortelle parole, la diversité, sur terre, des idiomes
empêche personne de proférer les mots qui, sinon se trouveraient, par
une frappe unique, elle-même matériellement la vérité.
Se aquilo a que aludem essas palavras de Mallarmé
puder ser rigorosamente apreciado pelo filósofo, a tradução
encontra-se, com seus germes de uma tal língua, a meio
caminho entre poesia e doutrina. A obra da tradução tem um
cunho inferior ao de ambas; entretanto, imprime marcas não
menos profundas na história.
Aparecendo a tarefa do tradutor sob essa luz, as vias
para sua resolução ameaçam obscurecer-se de maneira ainda
mais impenetrável. Aliás, a tarefa de fazer amadurecer na
tradução o sêmen da pura língua parece absolutamente
insolúvel, indefinível numa solução qualquer. Pois não se
subtrai terreno a uma tal solução, quando a reprodução do
sentido cessa de ser determinante? Pois não é outro, do ponto
de vista contrário, o significado de tudo que foi exposto
precedentemente. Fidelidade e liberdade – liberdade na
reprodução do sentido e, a serviço dessa liberdade, fidelidade
à palavra – são os velhos e tradicionais conceitos presentes
em qualquer discussão sobre traduções. Eles parecem não
mais servir para uma teoria que procura na tradução algo
mais do que a mera reprodução do sentido. É verdade que
seu emprego tradicional considera esses conceitos sempre
dentro de uma antinomia insolúvel. De fato, qual o efeito da
fidelidade sobre a reprodução do sentido? A fidelidade na
tradução de palavras isoladas quase nunca é capaz de
reproduzir plenamente o sentido que elas possuem no
original. Pois, em seu valor poético para o original, o sentido
não se esgota no designado; ele adquire esse valor
precisamente pela maneira com o que o designado se liga ao

modo de designar em cada palavra específica. Costuma-se
expressar isso utilizando a fórmula: as palavras carregam
consigo uma tonalidade afetiva. Precisamente a literalidade
com relação à sintaxe destrói toda e qualquer possibilidade de
reprodução do sentido, ameaçando conduzir diretamente à
inteligibilidade. Aos olhos do século XIX, as traduções
hölderlinianas de Sófocles eram exemplos monstruosos de
uma tal literalidade. Enfim, em que medida a fidelidade na
reprodução da forma dificulta a reprodução do sentido é algo
evidente. Em conseqüência disso, a exigência de literalidade
não pode ser derivada do interesse na manutenção do
sentido. A esta última serve muito mais – mesmo que muito
menos à literatura e à língua – a indisciplinada liberdade dos
maus tradutores. Portanto, essa exigência, cuja legitimidade é
patente, mas cuja motivação se acha encoberta, deve
necessariamente ser compreendida a partir de contextos mais
pertinentes. Assim como os cacos de um vaso, para poderem
ser recompostos, devem seguir-se uns aos outros nos
menores detalhes, mas sem se igualar, a tradução deve, ao
invés de procurar assemelhar-se ao sentido do original, ir
configurando, em sua própria língua, amorosamente,
chegando até aos mínimos detalhes, o modo de designar do
original, fazendo assim com que ambos sejam reconhecidos
como fragmentos de uma língua maior, como cacos são
fragmentos de um vaso. E precisamente por isso, ela deve
abstrair do propósito de comunicar. Também no âmbito da
tradução vale: εν αρχη ην ο λογος, no princípio era o Verbo.
Diante do sentido, sua língua tem o direito, aliás, o dever, de
desprender-se, para fazer ecoar sua própria espécie de
intentio enquanto harmonia, complemento da língua na qual
se comunica, e não sua intentio enquanto reprodução do
sentido. Por isso, o maior elogio a uma tradução, sobretudo
na época de seu aparecimento, não é poder ser lida como um
original em sua língua. Antes, o significado da fidelidade
garantida pela literalidade é precisamente que se expresse na

obra o grande anelo por uma complementação entre as
línguas. A verdadeira tradução é transparente, não encobre o
original, não o tira da luz; ela faz com que a pura língua,
como que fortalecida por seu próprio meio, recaia ainda mais
inteiramente sobre o original. Esse efeito é obtido sobretudo
por uma literalidade na transposição da sintaxe, sendo ela
que justamente demonstra ser a palavra – e não a frase – o
elemento originário do tradutor. Pois a frase constitui o muro
que se ergue diante da língua do original e a literalidade, sua
arcada.

Tradutor Inglês Para PortuguêsTradutor Inglês Para PortuguêsTradutor Inglês Para PortuguêsTradutor Inglês Para PortuguêsEm parte alguma, o fato de se levar em consideração o
receptor de uma obra de arte ou de uma forma artística
revela-se fecundo para o seu conhecimento. Não apenas o
fato de se estabelecer uma relação com determinado público
ou seus representantes constitui um desvio; o próprio
conceito de um receptor “ideal” é nefasto em quaisquer
indagações de caráter estético, pois devem pressupor
unicamente a existência e a natureza do homem em geral. Da
mesma forma, também a arte pressupõe sua atenção. Pois
nenhum poema dirige-se ao leitor, nenhum quadro, ao
espectador, nenhuma sinfonia, aos ouvintes.
E uma tradução? Será ela dirigida a leitores que não
compreendem o original? Essa questão parece explicar
suficientemente a diferença de estatura entre ambos no
âmbito da arte. Além disso, parece ser este o único motivo
possível para se dizer “a mesma coisa” repetidas vezes. O que
“diz” uma obra poética? O que comunica? Muito pouco para
quem a compreende. O que lhe é essencial não é a
comunicação, não é o enunciado. E, no entanto, a tradução
que pretendesse comunicar algo não poderia comunicar nada
que não fosse comunicação, portanto, algo inessencial. Pois
essa é mesmo uma característica distintiva das más
traduções. Mas aquilo que está numa obra literária, para além
do que é comunicado (e mesmo o mau tradutor admite que
isso é o essencial) não será isto aquilo que se reconhece em
geral como o inaferrável, o misterioso, o “poético”? Aquilo que
o tradutor só pode restituir ao tornar-se, ele mesmo, um
poeta? De fato, daí deriva uma segunda característica da má
tradução, que se pode definir, conseqüentemente, como uma
transmissão inexata de um conteúdo inessencial. Mas se ela
fosse destinada ao leitor, também o original o deveria ser. Se
o original não existe em função do leitor, como poderíamos

compreender a tradução a partir de uma relação dessa
espécie?
A tradução é uma forma. Para compreendê-la como tal,
é preciso retornar ao original. Pois nele reside a lei dessa
forma, enquanto encerrada em sua traduzibilidade. A
traduzibilidade de uma obra possui um duplo sentido. Ela
pode significar: encontrará a obra jamais, dentre a totalidade
de seus leitores, seu tradutor adequado? Ou então, mais
propriamente: admitirá ela, em conformidade com sua
essência, tradução e, conseqüentemente (em consonância
com o significado dessa forma), a exigirá também? Em
princípio, a primeira questão só admite uma solução
problemática, sendo a segunda apodíctica. Somente o
pensamento superficial irá declarar ambas como igualmente
significativas, negando o sentido autônomo da segunda.
Diante disso deve-se assinalar que certos conceitos
relacionais preservem todo o seu significado, aliás, talvez, até
mesmo seu melhor significado, quando não são referidos a
priori exclusivamente ao ser humano. Nesse sentido, poder-
se-ia falar de uma vida ou de um instante inesquecível,
mesmo que todos os homens o tivessem esquecido. Pois se
sua essência exigisse não serem esquecidos, aquele predicado
não conteria nada de falso, apenas uma exigência à qual os
homens não correspondem e ao mesmo tempo também a
referência a uma esfera, na qual essa exigência fosse
correspondida: a uma rememoração de Deus. De maneira
análoga, a traduzibilidade de construções de linguagem
deveria ser levada em consideração, ainda que elas fossem
intraduzíveis para os homens. E, não seriam elas, até certo
ponto, de fato intraduzíveis, se partimos de um determinado
conceito de tradução? E é preservando uma tal separação que
se deve questionar se a tradução de determinada estrutura de
linguagem deve ser exigida. Pois vale o princípio: se a
tradução é uma forma, a traduzibilidade deve ser essencial a
certas obras.

A traduzibilidade é, em essência, inerente a certas
obras; isso não quer dizer que sua tradução seja essencial
para elas mesmas, mas que um determinado significado
inerente aos originais se exprime na sua traduzibilidade. É
mais do que evidente que uma tradução, por melhor que seja,
jamais poderá ser capaz de significar algo para o original.
Entretanto, graças à sua traduzibilidade, ela encontra-se
numa relação de grande proximidade com ele. E, de fato,
essa relação é tanto mais íntima quanto nada mais significa
para o próprio original. Pode ser denominada uma relação
natural ou, mais precisamente, uma relação de vida. Da
mesma forma que as manifestações vitais estão intimamente
ligadas ao ser vivo, sem significarem nada para ele, a
tradução provém do original. Na verdade, ela não deriva tanto
de sua vida quanto de sua sobrevivência. Pois a tradução é
posterior ao original e assinala, no caso de obras importantes,
que jamais encontram à época de sua criação seu tradutor de
eleição, o estágio da continuação de sua vida. A idéia da vida
e da continuação da vida de obras de arte deve ser entendida
em sentido inteiramente objetivo, não metafórico. O fato de
que não seja possível atribuir vida unicamente à corporeidade
orgânica foi intuído mesmo por épocas em que o pensamento
sofria as piores limitações. Mas nem por isso trata-se de
estender o império da vida sob o débil cetro da alma, da
forma tentada por Fechner; menos ainda, trata-se de poder
definir a vida a partir de aspectos da animalidade, ainda
menos propícios a servirem de medida, como o sentimento,
que apenas ocasionalmente é capaz de caracterizá-la. É
somente quando se reconhece vida a tudo aquilo que possui
história e que não constitui apenas um cenário para ela, que o
conceito de vida encontra sua legitimação. Pois é a partir da
história (e não da natureza – muito menos de uma natureza
tão imprecisa quanto a sentimento ou alma) que pode ser
determinado, em última instância, o domínio da vida. Daí
deriva, para o filósofo, a tarefa: compreender toda a vida

natural a partir dessa vida mais vasta que é a história. E não
será ao menos a continuação da vida das obras
incomparavelmente mais fácil de reconhecer do que a das
criaturas? A história das grandes obras de arte conheceu sua
descendência a partir das fontes, sua configuração, na época
do artista, e o período da continuação de sua vida,
fundamentalmente eterna, nas gerações posteriores. Quando
surge, essa continuação da vida das obras recebe o nome de
fama. Traduções que são algo mais do que meras
transmissões surgem quando uma obra alcança, ao longo da
continuação de sua vida, a era de sua fama. Por isso, elas não
estão tanto a serviço de sua fama (como costumam alegar os
maus tradutores em favor de seu trabalho), quanto lhe devem
existência. Nelas, a vida do original, alcança, de maneira
constantemente renovada, seu mais tardio e vasto
desdobramento.
Enquanto desdobramento de uma peculiar vida elevada,
esse desdobramento, é determinado por uma finalidade
peculiar elevada. Vida e finalidade: seu nexo, aparentemente
mais tangível, mas que praticamente se subtrai ao
conhecimento, é descoberto apenas onde aquele fim, para o
qual convergem todas as finalidades da vida, deixa de ser, por
sua vez, buscado na sua própria esfera, para ser procurado
numa esfera mais elevada. Todas as manifestações finalistas
da vida, bem como sua finalidade em geral, não são
conformes, em última instância, às finalidades da vida, mas à
expressão de sua essência, à exposição de seu significado.
Assim, finalmente, a tradução tende a expressar o mais
íntimo relacionamento das línguas entre si. Ela própria não é
capaz de revelar, nem é capaz de instituir essa relação oculta;
pode, porém, apresentá-la, atualizando-a de maneira
germinal ou intensiva. E essa apresentação de um objeto
significado mediante a tentativa, o germe de sua constituição,
é um modo muito peculiar de apresentação, o qual
dificilmente pode ser encontrado no âmbito da vida não-lingüística, que conhece, nas analogias e nos signos, outros
tipos de referência, além da atualização intensiva, isto é,
alusiva, antecipatória. Mas aquela aludida relação de
intimidade entre as línguas constitui uma convergência muito
particular. Consiste no fato de que as línguas não são
estranhas umas às outras, sendo a priori – e abstraindo de
todas as ligações históricas – afins naquilo que querem dizer.
Com essa tentativa de explicação, o pensamento parece
estar novamente desembocando, depois de rodeios inúteis, na
tradicional teoria da tradução. Se é a afinidade entre as
línguas o que deve se verificar nas traduções, como poderiam
elas fazê-lo, senão pela transposição mais exata possível da
forma e do sentido do original? Naturalmente, a teoria em
questão não saberia manifestar-se a respeito de como tal
exatidão seria concebida e, finalmente, não poderia dar conta
daquilo que é essencial em traduções. Na verdade, porém,
numa tradução, a afinidade entre as línguas demonstra-se
muito mais profunda e definida do que na semelhança
superficial e vaga entre duas obras poéticas. Para
compreender a autêntica relação entre original e tradução
deve-se realizar uma reflexão, cujo propósito é absolutamente
análogo ao dos argumentos por meio dos quais a crítica
epistemológica precisa comprovar a impossibilidade de uma
teoria da imitação. Se em tal caso demonstra-se não ser
possível haver objetividade (nem mesmo a pretensão a ela)
no processo do conhecimento, caso ele consista apenas de
imitações do real, em nosso caso, pode-se comprovar não ser
possível existir uma tradução, caso ela, em sua essência
última, ambicione alcançar alguma semelhança com o
original. Pois na continuação de sua vida (que não mereceria
tal nome, se não se constituísse em transformação e
renovação de tudo aquilo que vive), o original se modifica.
Também existe uma maturação póstuma das palavras que já
se fixaram: elementos que à época do autor podem ter
obedecido a uma tendência de sua linguagem poética,
poderão mais tarde ter-se esgotado; tendências explícitas
podem destacar-se ex novo daquilo que já possui forma.
Aquilo que antes era novidade, mais tarde poderá soar gasto;
o que antes era de uso corrente pode vir a soar arcaico.
Procurar o essencial de tais mudanças (bem como das
igualmente
constantes
modificações
do
sentido)
na
subjetividade dos pósteros, em vez de buscá-lo na vida mais
íntima da linguagem e de suas obras seria, mesmo se
admitirmos o mais tosco psicologismo, confundir causa e
essência de um objeto; expresso de modo mais rigoroso:
seria negar um dos processos históricos mais poderosos e
produtivos por impotência do pensamento. E mesmo se se
pretendesse transformar o ponto final do autor no tiro de
misericórdia da obra – isso não salvaria aquela defunta teoria
da tradução. Pois da mesma forma com que tom e significado
das grandes obras poéticas se transformam completamente
ao longo dos séculos, também a língua materna do tradutor
se transforma. Pois enquanto a palavra do poeta perdura em
sua língua materna, mesmo a maior tradução está fadada a
desaparecer dentro da evolução de sua língua e a soçobrar
em sua renovação. Tão longe está de ser a equação surda
entre duas línguas findas que, precisamente, dentre todas as
formas, a ela mais propriamente compete atentar para aquela
maturação póstuma da palavra estrangeira, e para as
dolorosas contrações da própria.

Tradutor GratisIsso se obtém sobretudo pela literalidade na
transposição (Übertragung) da sintaxe, o que mostra com
precisão que é a palavra, e não a frase, o elemento originário
do tradutor. Pois a frase é o muro diante da língua do original,
a literalidade a arcada.
Se até o presente, fidelidade e liberdade na tradução
têm sido tomadas por tendências opostas, parece que esta
exegese mais profunda da primeira, longe de reconciliá-las,
priva, ao contrário, a segunda de qualquer direito. Pois a que
de fato se refere a liberdade senão à reprodução do sentido
que, segundo esta interpretação, deve deixar de ser
normativa? Mas, se é preciso tomar como idênticos o sentido
de uma obra de linguagem e sua comunicação, continua
existindo, próximo dele e, entretanto, infinitamente distante,
escondido sob ele ou mais exposto, fraturado por ele ou se
impondo com mais força ainda, para além de toda
comunicação, um elemento último e decisivo. Em todas as

línguas e suas obras permanece, fora do comunícável, um
incomunicável, segundo a relação em que se encontra algo de
simbolizante ou simbolizado. Simbolizante apenas nas obras
acabadas das línguas; mas simbolizado na transformação
destas. E o que se busca representar ou mesmo se instaurar
no devir das línguas é este núcleo da língua pura. Mas se,
escondido ou fragmentário, ele está, no entanto, presente na
vida como o próprio simbolizado, só aparece nas obras como
simbolizante. Se esta essência última, que é a própria língua
pura, está vinculada nas línguas apenas ao material verbal e
às suas transformações, nas obras é ela afetada por um
sentido denso e estranho. Desvinculá-la desse sentido, fazer
do simbolizante o simbolizado, mesmo recuperar a língua
pura configurada no movimento verbal, é o violento e único
poder da tradução. Nesta língua pura, que não significa nem
exprime mais nada senão a palavra privada de expressão e
criatividade, que é o buscado em todas as línguas, toda
comunicação, todo significado e toda intenção atingem uma
esfera em que se destinam a se extinguir. E tal patamar,
precisamente, assegura à liberdade da tradução um direito
novo e mais alto. Esta liberdade não deve sua existência ao
sentido da comunicação, do qual a tarefa da fidelidade é
exatamente fazê-la escapar. Pelo contrário, a liberdade em
favor da língua pura verifica-se primeiro em sua própria
língua. Resgatar em sua própria língua essa língua pura,
ligada à língua estrangeira, liberar pela transcriação essa
língua pura cativa na obra, é a tarefa do tradutor. Em favor
dela, o tradutor rompe as molduras carcomidas da própria
língua: Lutero, Voss, Hölderlin e George ampliaram as
fronteiras do alemão. Pode-se captar por uma comparação o
valor que permanece ligado ao sentido na relação entre
tradução e original. Assim como a tangente toca o círculo de
passagem e num só ponto, sendo esse contato e não o ponto
que prescreve a lei segundo a qual ela prossegue até o infinito
em linha reta, assim também a tradução toca o original de

passagem e no ponto infinitamente pequeno do sentido, para
prosseguir, de acordo com a lei da fidelidade, a sua própria
rota na liberdade do movimento da linguagem. Sem nomeá-
lo, nem fundamentá-lo, foi Rudolf Pannwitz quem caracterizou
o verdadeiro significado dessa liberdade, em sua Crise da
Cultura Européia (Die Krisis der europäischen Kultur), em
explicação que, ao lado de Goethe em suas anotações para o
Divan, será provavelmente o que de melhor se publicou na
Alemanha sobre a teoria da tradução. Eis o que escreveu
Pannwitz:
Nossas traduções (Übertragungen), mesmo as melhores, partem de
um falso princípio. Elas querem germanizar o sânscrito, o grego, o
inglês, em vez de sanscritizar, helenizar, anglicanizar o alemão. Elas
têm muito respeito (Ehrfurcht) pelos usos de sua própria língua do que
pelo espírito da obra estrangeira.[…] O erro fundamental do tradutor
(Übertragenden) é conservar o estado contingente de sua própria
língua em vez de deixá-la mover-se violentamente através da língua
estrangeira. Sobretudo quando se traduz de uma língua muito
distanciada, é preciso remontar até os últimos elementos da própria
linguagem, até esse fundo onde palavra, imagem e som se
interpenetram. É preciso ampliar e aprofundar sua própria língua
graças à língua estrangeira. Ninguém sabe até que ponto isso é
possível, até que ponto uma língua pode transformar-se, considerando
que uma língua se distingue de outra quase como um dialeto se
distingue de outro. Essa distinção, contudo, se perde quando se toma
a língua de maneira leviana, e não quando se lhe toma com a devida
seriedade.
A traduzibilidade do original determinará objetivamente
em que medida uma tradução pode corresponder à essência
dessa forma. Quanto menos valor e dignidade tem a sua
língua, tanto mais ela é comunicação, e menos interesse pode
nela encontrar a tradução. A predominância total desse
sentido, longe de ser alavanca de uma tradução formalmente
acabada, a torna um fracasso. Quanto mais alta é a qualidade
de uma obra, tanto mais ela se torna, mesmo no mais fugidio
contato com o sentido, suscetível de tradução. Bem
entendido: isso vale apenas para textos originais. Em
contrapartida, traduções se revelam intraduzíveis, não porque

o sentido pese demais sobre elas, antes porque as toca de
maneira extremamente fugidia. Sob esse aspecto, as
transposições de Hölderlin, sobretudo, das duas tragédias de
Sófocles, representam a confirmação de nossa tese. Aí a
harmonia entre as línguas é tão profunda que o sentido da
linguagem é tocado à maneira de uma harpa eólia tocada pelo
vento. As transposições de Hölderlin são arquétipos de sua
forma; mesmo quanto às transposições mais acabadas de
seus textos, elas são como o arquétipo para o modelo, a
exemplo do que mostra a comparação das transposições de
Hölderlin e Borchardt da terceira ode de Píndaro. Mesmo por
isso, nelas se verifica mais do que noutras o risco terrível e
originário a toda tradução: que as portas de uma língua tão
extensa e tão dominada se fechem e aprisionem o tradutor no
silêncio. As traduções de Sófocles foram as últimas obras de
Hölderlin. Nelas o sentido se precipita, de abismo em abismo
até o risco de se perder num abismo verbal sem fundo. Mas
há um ponto de parada. Este, porém, não garante nenhum
texto, excetuado o texto sagrado, onde o sentido deixou de
ser a linha de partilha entre o fluxo da linguaqem e o fluxo da
revelação. Onde o texto, diretamente, sem a mediação de um
sentido em sua literalidade, pertence à verdadeira linguagem,
à verdade ou à doutrina, é por definição traduzível. Com
efeito, não mais por si só, mas tão só pelas línguas. Face a
isso, requer-se, por parte da tradução, uma confiança tão
ilimitada que, abolida toda tensão, como ocorre no texto
sagrado com a linguagem e com a revelação, em tal tradução
literalidade e liberdade se unifiquem sob a forma de uma
versão interlinear. Pois todos os grandes escritos, em
qualquer grau, e a Sagrada Escritura em grau mais elevado,
contêm nas entrelinhas a sua tradução virtual. A versão
interlinear do texto sagrado é o arquétipo ou o ideal de toda
tradução.

Com isso, verifica-se que toda tradução é um modo, por
assim dizer, provisório de se medir a estranheza das línguas
entre si. Uma solução para essa estranheza, que seja mais do
que temporária e provisória, que seja instantânea e definitiva,
eis aí o que é interdito aos homens, ou ao menos, algo que
não é buscável diretamente. Porém, de maneira mediata, é o
crescimento das religiões que faz amadurecer nas línguas a
semente latente de uma linguagem superior. Assim, a
tradução, ainda que não possa pretender a durabilidade de
suas obras, e nisto se diferencia da arte, não abandona por
isso sua orientação rumo a um estágio último, definitivo,
decisivo de toda composição verbal. Nela, o original
transpassa, por assim dizer, para uma zona mais alta e mais
pura da linguagem, na qual não pode viver por longo tempo
como, de resto, está distante de alcançá-la em todas as

partes de sua forma, mas a que assinala de modo
extraordinariamente penetrante como ao âmbito prometido e
interdito de reconciliação e cumprimento das linguas. Este
âmbito não é alcançado em bloco, mas nele se encontra
aquilo que faz da tradução algo mais do que mera
comunicação. Mais precisamente pode-se definir esse núcleo
essencial como que na tradução não é retraduzível. Pois, do
que se pode extrair do comunicável para o mediável,
permanece sempre o intocável, para o qual se orienta o
trabalho do verdadeiro tradutor. Ele não é transmissivel, ao
contrário da palavra criadora (Dichterwort) do original, pois a
relação do conteúdo com a linguagem difere completamente
no original e na tradução. No original, conteúdo e linguagem
formam uma unidade determinada, como a do fruto e da
casca, a linguagem da tradução envolve seu conteúdo, como
um manto real, com dobras sucessivas. Pois ela significa uma
linguagem superior a si mesma e permanece, por isso, em
relação ao próprio conteúdo, inadequada, violenta e estranha.
Essa fratura impede cada transposição (Übertragung) e a
torna vã. Pois toda tradução de uma obra, de um determinado
ponto temporal da história da língua, representa, com
respeito a um determinado aspecto de seu conteúdo, esse
aspecto e aquele momento em todas as outras línguas. A
tradução transplanta, assim, o original a um terreno
ironicamente mais definitivo da língua, ao menos enquanto o
original não pode mais ser deslocado por nenhuma
transposição, mas só elevado, sobre esse terreno, sempre de
novo e noutras partes. Não é ocasional que a palavra irônico
aqui lembre cursos de idéiàs românticas; antes de outros os
românticos penetraram na vida das obras, da qual a tradução
é um testemunho superior. Por certo não reconheceram esse
papel da tradução e dedicaram toda sua atenção à crítica, que
representa também um momento, embora menor, na
sobrevivência das obras. Entretanto, ainda que sua teoria não
se tenha concentrado na tradução, suas grandes traduções se

cumpriram com o sentimento da essência e dignidade dessa
forma. Esse sentimento, tudo o indica, não tem necessidade
de ser o mais forte no escritor (Dichter); talvez nele ocupe
um espaço menor. A história sequer justifica o preconceito
tradicional, que reza que os tradutores significativos seriam
escritores e os escritores sem importância, tradutores
menores. Uma série dos maiores, como Lutero, Voss,
Schlegel, são, como, tradutores, incomparavelmente mais
importantes do que como escritores; outros, entre os
maiores, como Hölderlin e Stefan George, ao considerar-se o
conjunto de suas criações, não podem ser tomados somente
como escritores (Dichter). Muito menos como tradutores.
Assim, como a tradução é uma forma própria, assim também
se pode compreender a tarefa do tradutor como autônoma e
diferenciada da do escritor.
Esta consiste em encontrar, na língua para a qual se
traduz, aquela intenção da qual é nela despertado o eco do
original. Aparece aqui o traço que distingue completamente a
tradução da obra de criação literária (Dichtwerk), pois sua
intenção jamais concerne à língua enquanto tal, à sua
totalidade, mas só, de modo imediato, a certas correlações de
conteúdo verbal. A tradução não se acha, como a obra
literária, por assim dizer, na floresta interna da língua;
mantém-se fora desta, frente a ela e, sem a penetrar, faz
com que nela ressoe o original; e isso apenas ali onde o eco
em sua própria língua pode dar a ouvir a obra escrita em
língua estrangeira. Sua intenção se dirige a outro objeto que
não só o da criação literária, i.e., a uma língua em seu todo, a
partir de uma única obra de arte escrita em lingua
estrangeira, mas é em si mesma diversa: a intenção do
escritor é ingênua, primeira, intuitiva; a do tradutor,
derivada, derradeira, ideal. Pois o que realiza seu trabalho é a
possibilidade de integração das muitas línguas na língua
verdadeira. Neste trabalho as proposições, obras, juízos
singulares, nunca se comunicam – pois permanecem

dependentes de tradução – mas as próprias línguas
concordam entre si, completam-se e se reconciliam na
maneira de significar. Mas se há, por outro lado, uma língua
da verdade – língua em que os segredos últimos, a que todo
pensamento converge, se conservam distensos e em silêncio
– esta língua da verdade é a verdadeira linguagem. E, mesmo
esta – em cujo pressentir e descrever está a única perfeição a
que o filósofo pode aspirar – se mostra intensamente oculta
nas traduções. Não há Musa da filosofia, tampouco Musa da
tradução. Mas filosofia e tradução, ao invés do que pensam os
artistas sentimentais, não são trivialidades. Pois há um
engenho filosófico, cujo íntimo característico é a aspiração
àquela linguagem que na tradução se anuncia:
Les langues imparfaites en cela que plusieurs, manque la supréme:
penser étant écrire sans accessoires ni chuchotement, mais tacite
encore l’immortelle parole, la diversité, sur terre, des idiomes
empêche personne de proférer les mots qui, sinon se trouveraient, par
une frappe unique, elle-même matériellement la vérité.3
Se o que se pensa nestas palavras de Mallarmé é
aplicável, com todo rigor, ao filósofo, a tradução, com os
germes de tal língua, situa-se a meio caminho entre a criação
literária e a teoria. Sua obra é menos caracterizada por uma e
por outra mas não se cunha menos profundamente na
história.
Se a tarefa do tradutor aparece sob este prisma, os
caminhos de sua realização arriscam a se obscurecer de modo
impenetrável. A tarefa de provocar o amadurecimento, na
tradução, das sementes da pura linguagem, parece
inalcançável. Pois qualquer solução não torna impossível se a
reprodução do sentido (die Wiedergabe des Sinnes) deixa de
ser determinante? Dito pela negativa, este é o significado de
3
As línguas imperfeitas, por serem várias, falta-lhes a suprema: pensar
sendo escrever sem acessórios nem murmúrio, mas ainda tácita a imortal
palavra; a diversidade, na terra, dos idiomas impede que se profiram as
palavras que, do contrário, se encontrariam por um caminho único, ele
próprio materialmente a verdade.

tudo que precede. Fidelidade e liberdade – liberdade da
reprodução do sentido e, para seu alcance, fidelidade à
palavra – são os velhos conceitos empregados nas discussões
sobre as traduções. Uma teoria que busca na tradução só a
reprodução do sentido, não mais parece ser de valia. É
verdade que seu emprego tradicional sempre toma esses
conceitos como uma antinomia insolúvel. Pois a que pode
propriamente conduzir a fidelidade à repetição do sentido?
Fidelidade, na tradução, de cada palavra, não assegura que se
reproduza o pleno sentido que ela tem no original. Pois este
não se esgota em sua significação poética conforme o original,
mas a adquire pela forma como o significado se une ao modo
de significar a palavra em questão. Costuma-se exprimi-lo
pela forma segundo a qual as palavras trazem consigo uma
tonalidade afetiva. A literalidade sintática pode reverter
inteiramente a restituição do sentido e conduzi-la diretamente
ao nonsense. As traduções de Sófocles por Hölderlin
apresentaram, no século XIX, exemplos monstruosos de tal
literalidade. Não é dificil perceber-se, afinal, como a fidelidade
na restituição da forma torna difícil a restituição do sentido.
Em conseqüência, a exigência de literalidade é indedutível do
interesse na conservação do sentido. Esta é beneficiada – mas
não a criação literária, nem a língua – pela indisciplinada
liberdade dos maus tradutores. Em conseqüência, tal
exigência, cujo direito é evidente mas cuja justificação
permanece misteriosa, há de ser entendida a partir de
correlações mais pertinentes. Como os cacos de uma ânfora,
para que, nos mínimos detalhes, se possam recompor, mas
nem por isso se assemelhar, assim também a tradução, ao
invés de se fazer semelhante ao sentido do original, deve, em
um movimento amoroso que chega ao nível do detalhe, fazer
passar em sua própria língua o modo de significar do original.
Do mesmo modo que os cacos tornam-se reconhecíveis como
fragmentos de uma mesma ânfora, assim também original e
traduções tornam-se reconhecíveis como fragmentos de uma

linguagem maior. Mesmo por isso a tradução deve, em alta
medida, renunciar ao intento de comunicar algo; o original lhe
é essencial só na medida em que liberou o tradutor e a sua
obra do esforço e da ordem da comunicação. Também no
domínio da tradução é de regra: εν αρχη ην ο λογος, no
princípio era o verbo. Diante do sentido, a língua do tradutor
deve agir livremente, não para que faça ressoar a sua intentio
como reprodução, mas sim como harmonia, como suplemento
à língua em que se comunica de seu próprio modo a intentio.
É por isso que, sobretudo na época em que a tradução
aparece, o maior elogio que se lhe pode fazer não é que ela
se leia como uma obra original de sua própria língua. Ao
invés, o valor da fidelidade, garantida pela literalidade,
consiste em que na obra se exprima a grande aspiração à
suplementação da língua. A verdadeira tradução é
transparente, não esconde o original, não o ofusca, mas faz
com que caia tanto mais plenamente sobre o original, como
se forçada por seu próprio meio, a língua pura.

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