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Posted on: maio 30, 2010

online-tradutorQuando, na tradução, se manifesta o parentesco entre
as línguas, isso dá-se de modo diferente do da vaga
semelhança entre imitação e original. É, aliás, óbvio que não
tem necessariamente de existir semelhança no parentesco.
Também nisto o conceito de parentesco coincide neste

contexto com o do seu uso mais restrito, uma vez que, em
ambos os casos, não pode ser definido pela identidade da
descendência, apesar de o conceito de descendência continuar
a ser imprescindível para a determinação daquele uso mais
restrito. – Em que plano podemos então encontrar o
parentesco entre duas línguas, para lá do parentesco
histórico? Tão pouco na semelhança de duas obras literárias
como na das suas palavras. O parentesco supra-histórico
entre línguas reside antes no facto de, em cada uma delas
como um todo, se querer dizer uma e a mesma coisa,
qualquer coisa que, no entanto, não é acessível a nenhuma
delas isoladamente, mas apenas à totalidade das suas
intencionalidades que se complementam umas às outras: à
língua pura. De facto, enquanto todos os elementos isolados –
as palavras, as frases, os contextos – de línguas estranhas
umas às outras se excluem, essas línguas completam-se nas
suas próprias intencionalidades. Para compreender com
exactidão esta lei, uma das leis fundamentais da filosofia da
linguagem, é necessário distinguir, nessa intencionalidade, o
que se quer dizer (das Gemeinte) do modo como se quer
dizer (die Art des Meinens). Nas palavras “Brot” e “pain” o
que se quer dizer é o mesmo, mas não o modo de o querer
dizer. É devido a esse modo de querer dizer que ambas as
palavras significam coisas diferentes para um Alemão e um
Francês, que elas não são permutáveis, que, em última
análise, tendem para a exclusão mútua; e é por via do que
querem dizer que elas, tomadas em absoluto, significam algo
que é o mesmo e idêntico. Destarte, os modos do querer dizer
nestas duas palavras contrariam-se um ao outro, mas
completam-se nas duas línguas de onde elas provêm. E nelas
esse modo de querer dizer completa-se para convergir naquilo
que se quer dizer. Nas línguas isoladas, sem complemento, o
que nelas se quer dizer nunca se encontra numa autonomia
relativa, como acontece com as palavras ou frases isoladas,
mas sempre em permanente mudança, até conseguir emergir,

sob a forma da língua pura, da harmonia de todos os modos
do querer dizer. Até aí, permanece oculto nas línguas. Mas se
estas crescem deste modo até ao fim messiânico da sua
história, é a tradução que se inflama na eterna sobre-vida das
obras e na infinita renovação da vida das línguas, para
continuamente pôr à prova aquele crescimento sagrado das
línguas – para determinar a que distância o que nelas é oculto
se encontra da revelação e como isso se pode tornar presente
no saber dessa distância.
Isto, porém, equivale a admitir que toda a tradução é
apenas uma forma, de algum modo provisória, de nos
confrontarmos com a estranheza das línguas. Outra solução
para esta estranheza, que não seja temporária e provisória,
uma solução instantânea e definitiva, está vedada ao homem,
ou pelo menos ele não pode aspirar a ela directamente. Mas
de forma indirecta é o crescimento das religiões que permite
que nas línguas germine a semente escondida de uma língua
superior. A tradução, diferentemente da arte, apesar de não
poder aspirar à durabilidade das suas criações, não renuncia a
orientar-se no sentido de um último, definitivo e decisivo
estádio do trabalho criativo na linguagem. Nela, o original
sobe até uma atmosfera linguística por assim dizer mais alta e
mais pura, na qual, é certo, não poderá viver eternamente –
como nem sequer a alcança em todos os momentos da obra –,
mas para a qual aponta pelo menos, de forma milagrosamente
acutilante, como para essa região prometida e inalcançada da
reconciliação e da plenitude das línguas. Nunca alcançará de
forma total essa região, mas nela está aquilo que, numa
tradução, é mais do que mera informação. Se quisermos
definir com mais rigor esse cerne essencial, poderemos dizer
que ele é aquilo que na tradução é, por sua vez, intraduzível.
Poderemos extrair dela tanta substância meramente
informacional
quanto
quisermos
e
traduzi-la;
mas
permanecerá sempre um resto intocável, no sentido do qual
se orientou o trabalho do verdadeiro tradutor. Esse resto não

é transmissível como o é a palavra poética do original, porque
a relação entre conteúdo e linguagem é totalmente diferente
no original e na tradução. Se no primeiro caso ela é
comparável á unidade formada por fruto e casca, já a
linguagem da tradução envolve os seus conteúdos como com
um manto real caindo em amplas pregas. E isto acontece
porque ela significa uma língua mais elevada do que ela, e por
isso, na relação com os seus próprios conteúdos, permanece
desajustada, forçada e estranha. Esta disjunção impede toda
a transposição, e ao mesmo tempo torna-a desnecessária.
Toda a tradução de uma obra situada num momento dado da
história da língua representa, no que se refere a um
determinado aspecto do seu conteúdo, os de todas as
restantes línguas. A tradução transplanta, assim, o original
para um domínio linguístico que, nesta medida – e
ironicamente –, é mais definitivo, uma vez que não poderá
ser deslocado daí por mais nenhuma tradução, mas pode
apenas ser elevado até esse domínio repetidamente e em
novos aspectos. Não é por acaso que neste contexto a palavra
“ironicamente” evoca os autores românticos e alguns dos seus
processos de pensamento. Estes, mais do que outros, tiveram
a percepção da vida das obras, de que a tradução é um
testemunho dos mais importantes. É certo que eles mal
reconheceram a tradução, tendo antes voltado toda a sua
atenção para a crítica, que constitui também um momento,
ainda que menos relevante, da sobre-vida das obras. Mas, se
a sua teoria pouco se interessou pela tradução, já as suas
grandiosas obras de tradução nunca deixaram de ser
acompanhadas por um sentido apurado da essência e da
dignidade desta forma. Esse sentido – e tudo aponta para aí –
não tem necessariamente de estar mais presente no poeta,
talvez até o seu lugar seja mais diminuto nele enquanto
poeta. Nem a história confirma o habitual preconceito
segundo o qual os mais importantes tradutores seriam
poetas, e os poetas menores tradutores medíocres. Há uma
série de grandes nomes, como Lutero, Voß,5 Schlegel, que
foram muito mais importantes como tradutores do que como
poetas, enquanto outros entre os maiores, como Hölderlin e
George,6 dada a amplitude da sua obra, não são subsumíveis
apenas no conceito de poeta, em especial se os virmos como
tradutores. Pois, do mesmo modo que a tradução é uma
forma própria, assim também a tarefa do tradutor tem a sua
especificidade e deve distinguir-se claramente da do poeta.
Essa tarefa consiste em encontrar a intencionalidade,
orientada para a língua da tradução, a partir da qual nesta é
despertado o eco do original. Nisto reside uma das
características que distinguem a tradução da obra poética,
porque a intencionalidade daquela não visa nunca a língua
como tal, a sua totalidade, mas apenas, e de forma imediata,
determinadas conexões linguísticas a nível dos conteúdos. A
tradução nunca se vê, como a criação poética, por assim dizer
no interior da floresta da língua, mas fora dela; perante ela e
sem nela entrar, ela atrai o original para o seu interior, para
aquele lugar único onde o eco é capaz de fazer ouvir, na sua
própria língua, a ressonância da obra na língua estrangeira. A
sua intencionalidade não visa apenas qualquer coisa de
diferente da da literatura original, nomeadamente uma língua
na sua totalidade, a partir de uma única obra de arte numa
língua estrangeira; ela própria, enquanto tal, é totalmente
diferente: a intencionalidade do poeta é ingénua, primeira,
intuitiva, a do tradutor derivada, última, ideativa. E isto
porque o grande motivo que preenche o seu trabalho é o de
uma integração das várias línguas numa única e verdadeira.
Esse trabalho, porém, é aquele no qual, de facto, as frases
isoladas, as obras, os juízos críticos nunca se encontrarão – já
que estão dependentes da tradução –, mas no qual as
próprias línguas coincidem umas com as outras, completadas
e reconciliadas no modo do seu querer dizer. Mas se, de
alguma outra forma, existe uma língua da verdade na qual se
conservam, sem tensões e silenciosos, os últimos mistérios
que constituem o objecto de todo o pensamento, então essa
língua da verdade é – a verdadeira língua. E é precisamente
essa língua, em cujo pressentimento e descrição reside a
única perfeição a que o filósofo pode aspirar, que está oculta,
de forma intensiva, nas traduções. Não existe musa da
filosofia, nem também da tradução. Mas elas não são coisa
trivial, como pretendem certos artistas sentimentais, pois
existe um ingenium filosófico cuja marca mais própria é a
nostalgia daquela língua que se anuncia na tradução.
Les langues imparfaites en cela que plusieurs, manque la suprême:
penser étant écrire sans accessoires, ni chuchotement mais tacite
encore l’immortelle parole, la diversité, sur terre, des idiomes <n’>
empêche personne de proférer les mots qui, sinon se trouveraient, par
une frappe unique, elle-même matériellement la vérité.7
Se a realidade para que remetem estas palavras de
Mallarmé for plenamente apreensível pelo filósofo, então a
tradução, com os seus gérmens de uma tal língua, situa-se a
meio caminho entre a poesia e a doutrina. As suas obras têm
um perfil menos nítido, mas não se inserem de forma menos
profunda na história.
Se a tarefa do tradutor surge a esta luz, os caminhos da
sua solução correm o risco de se ensombrarem de forma cada
vez mais impenetrável. Esta tarefa – levar à maturidade, na
tradução, a semente de uma língua pura – parece, em boa
verdade, ser insolúvel, não determinável qualquer que seja a
solução. Pois não ficará ela sem fundamento a partir do
momento em que a restituição do sentido deixa de ser
determinante? Vista negativamente, é esta a significação de
tudo o que se disse antes. Fidelidade e liberdade – liberdade
da reconstituição de acordo com o sentido e, ao seu serviço,
fidelidade à palavra – são os conceitos tradicionais em toda a
discussão sobre a tradução. Mas eles parecem já não poder
servir a uma teoria que busca na tradução outra coisa que
não a reconstituição do sentido. No seu uso mais corrente,
estes conceitos são sempre vistos como parte de uma
dicotomia insolúvel. De facto, que pode a fidelidade,
precisamente ela, fazer pela reconstituição do sentido? A
fidelidade na tradução da palavra isolada quase nunca
consegue dar plenamente o sentido que ela tem no original,
porque este não se esgota, na sua significação poética
original, naquilo que se quer dizer, mas adquire-a
precisamente pela forma como o que se quer dizer se articula
com o modo do querer dizer nessa palavra. Costuma
expressar-se esta ideia através da fórmula que diz que as
palavras transportam consigo conotações afectivas. A simples
literalidade na transposição da sintaxe vira completamente do
avesso qualquer reconstituição de sentido, ameaçando
mesmo levar à absoluta incompreensão. Para o século XIX, as
traduções de Sófocles por Hölderlin eram o melhor exemplo
da monstruosidade de uma tal literalidade. Compreende-se
assim facilmente como a fidelidade na reconstituição da forma
dificulta a do sentido. Assim sendo, a exigência da literalidade
não pode ser derivada do interesse em preservar o sentido. É
a liberdade desregrada dos maus tradutores que serve essa
exigência, muito mais do que serve a poesia e a linguagem.
Essa exigência, cuja justificação é óbvia, mas cujas razões
estão muito escondidas, terá então, necessariamente, de ser
compreendida a partir de um contexto mais adequado. Por
exemplo: tal como os cacos de um vaso, para se poderem
reajustar, têm de encaixar uns nos outros nos mais pequenos
pormenores, embora não precisem de ser iguais, assim
também a tradução, em vez de querer assemelhar-se ao
sentido do original, deve antes configurar-se, num acto de
amor e em todos os pormenores, de acordo com o modo de
querer dizer desse original, na língua da tradução, para assim
tornar ambos, original e tradução, reconhecíveis como
fragmentos de uma língua maior, tal como os cacos são os
fragmentos do vaso inteiro. Por isso mesmo ela deve
prescindir em alto grau da intenção de comunicar alguma
coisa, do sentido; o original só é essencial para ela na medida
em que dispensa o tradutor e a sua obra do esforço e da
disciplina de dar expressão aos conteúdos a comunicar.
Também no domínio da tradução se aplica o lema: εν αρχη ην
ο λογος, ao princípio era o verbo. Por outro lado, a sua língua
pode e deve mesmo, no que respeita ao sentido, ser pouco
cuidada, para fazer ressoar a intentio do original, não como
reconstituição, mas como harmonia, como complemento na
língua em que ela se expressa, como a forma própria da sua
intentio. Por esta razão, não constitui grande louvor para uma
tradução, sobretudo na época em que surge, o dizer-se dela
que se lê como um original da sua língua. Pelo contrário: o
significado da fidelidade, cujo garante é a literalidade, é o da
grande nostalgia pela complementaridade de linguagem, a
que a obra deve dar voz. A verdadeira tradução é
transparente, não esconde o original, não lhe tapa a luz, mas
permite que a língua pura, como que reforçada pelo seu
próprio meio de expressão, incida de forma ainda mais plena
sobre o original. Isso consegue-se sobretudo pela literalidade
na transposição da sintaxe, que mostra como o elemento
primordial do tradutor é a palavra e não a frase: a frase é o
muro diante da língua do original, e a literalidade uma arcada.
Se a fidelidade e a liberdade desde sempre foram vistas
como tendências opostas, também esta interpretação mais
profunda de uma delas não parece reconciliar as duas, mas,
pelo contrário, negar todos os direitos à outra. Qual é, de
facto, a referência da liberdade, a não ser a reconstituição de
um sentido que deixe de ser lei? No entanto, se o sentido de
uma criação linguística pode ser equacionado como idêntico
ao da informação que veicula, o facto é que lhe resta ainda,
para lá de toda a informação, algo de definitivo e decisivo,
muito perto e infinitamente longe, oculto sob ele ou mais
evidente, por ele fragmentado ou impondo-se como mais
poderoso. Em toda a linguagem e nas suas criações resta,
para lá do que é comunicável, um não-comunicável, um
simbolizante e um simbolizado, dependente do contexto em
que se situa. Simbolizante, apenas nas criações finitas das
línguas; mas simbolizado no próprio devir das línguas. E
aquilo que, no devir das línguas, busca a sua representação, e
mesmo a sua configuração material, é o próprio âmago da
língua pura, de que atrás se falou. Mas se este, ainda que
oculto ou fragmentado, na vida está presente sob a forma do
próprio simbolizado, nas criações da linguagem habita apenas
sob forma simbolizante. Se aquela essência última, que é a
própria língua pura, se liga, nas línguas, apenas ao material
de linguagem e às suas transmutações, já nas criações da
linguagem ela está presa a um sentido, pesado e estranho. E
a tradução é aquele meio, poderoso e único, capaz de libertar
a língua pura do peso do sentido, de transformar o
simbolizante no próprio simbolizado, de recuperar a língua
pura, esteticamente configurada, para o movimento da
linguagem. Nesta língua pura, que já não quer dizer nem
exprime nada, mas é, enquanto palavra não-expressiva e
criadora, aquilo que todas as línguas querem dizer, toda a
informação, todo o sentido e toda a intencionalidade
convergem num plano em que estão destinados a extinguir-
se. E é precisamente nele que se confirma a liberdade da
tradução, com uma nova e mais elevada legitimação. Esta
liberdade não deve a sua existência ao sentido da informação
– o sentido da fidelidade é precisamente o de a emancipar
dele. Pelo contrário, a liberdade afirma-se na língua própria
tendo em vista a língua pura. A tarefa do tradutor é a de
redimir na língua própria aquela língua pura que se exilou nas
alheias, a de a libertar da prisão da obra através da recriação
poética. Por ela, o tradutor quebra as barreiras apodrecidas
da sua língua: Lutero, Voß, Hölderlin, George expandiram as
fronteiras da língua alemã. – Aquilo que, seguindo esta linha
de pensamento, resta ao sentido na questão da relação da
tradução com o original pode ser compreendido através de
uma comparação. Tal como a tangente toca a circunferência
levemente e apenas num ponto, do mesmo modo que é esse
contacto, mas não o ponto, que lhe dita a lei que guiará a sua
trajectória rectilínea até ao infinito, assim também a tradução
toca o original ao de leve, e apenas naquele ponto
infinitamente pequeno do sentido, para seguir na sua órbita
própria à luz de uma lei que é a da fidelidade na liberdade do
movimento da linguagem. O verdadeiro significado desta
liberdade foi caracterizado, sem propriamente o nomear nem
fundamentar, por Rudolf Pannwitz8 em algumas considerações
que se encontram n’ A Crise da Cultura Européia e que,
juntamente com os comentários de Goethe nas notas ao Divã
Ocidental-Oriental,9 constituirão provavelmente o que de
melhor se escreveu na Alemanha sobre a teoria da tradução.
Aí se pode ler:
As nossas versões, mesmo as melhores, partem de um falso princípio:
pretendem germanizar o indiano, o grego, o inglês, em vez de
indianizar, helenizar, anglicizar o alemão. Revelam uma veneração
muito maior pelos usos linguísticos domésticos do que pelo espírito da
obra estrangeira… O erro fundamental de quem traduz é o de fixar o
estado da língua própria, que é obra do acaso, em vez de a fazer
entrar num movimento intenso por intervenção da língua estrangeira.
Ele deve, mais ainda se traduzir de uma língua muito distante, recuar
até aos elementos primordiais da própria língua, lá onde palavra,
imagem e sonoridade se confundem. Tem de alargar e aprofundar a
sua língua através da língua estrangeira. Não se imagina até que
ponto isso é possível, até que limite uma língua se pode transformar,
como as línguas se distinguem quase só como os dialectos. Mas é claro
que isto só é assim se encararmos as línguas verdadeiramente a sério,
e não levianamente.
Até que ponto uma tradução é capaz de corresponder à
essência desta forma, isso é determinado objectivamente pela
tradutibilidade do original. Quanto menos valor e dignidade a
sua língua tiver, quanto mais ela for informação, menos há a
ganhar na tradução, até que o total predomínio desse sentido,
muito longe de servir de alavanca para uma tradução
formalmente perfeita, acabará por fazê-la malograr. Quanto
mais elevada for a forma de uma obra, tanto mais ela será
traduzível, ainda que a tradução aflore apenas ao de leve o
seu sentido. Isto aplica-se, evidentemente, apenas aos
originais. As traduções, pelo contrário, revelam ser
intraduzíveis, não pelo peso do sentido, mas pela enorme
leveza que ele nelas assume. A versões de Hölderlin, em
particular as das tragédias de Sófocles, são a melhor
confirmação deste e de todos os outros aspectos essenciais da
questão. Nelas a harmonia das línguas é tão profunda que o
sentido só é tocado pela língua como uma harpa eólica pelo
vento. As traduções de Hölderlin são arquétipos (Urbilder) da
sua forma: elas estão para as mais perfeitas versões daqueles
textos como o arquétipo está para o modelo (Vorbild), como
mostra a comparação das traduções da terceira ode pítica de
Píndaro por Hölderlin e Borchardt.10 Por isso mesmo lhes é
inerente, mais do que a outras, o enorme perigo, ameaça
original de todas as traduções: que os portões de uma língua
assim alargada e dominada se fechem, encerrando o tradutor
no silêncio. As traduções de Sófocles foram a última obra de
Hölderlin. Nelas, o sentido precipita-se de abismo em abismo,
até ameaçar perder-se no sem-fundo das profundezas da
língua. Mas existe um ponto de paragem e atenção (ein
Halten), que, no entanto, só o texto sagrado pode garantir:
nele, o sentido deixou de ser a linha de separação entre a
torrente da língua e a torrente da revelação. Se o texto
pertencer, de forma não mediatizada, sem a mediação do
sentido e pela sua literalidade, à língua verdadeira, à verdade
ou à doutrina, existirá nele uma tradutibilidade de princípio.
Agora já não em função de si mesmo, mas apenas das
línguas. Na relação com ele exige-se à tradução uma
confiança tão ilimitada que, no plano desta literalidade e
liberdade, sob a forma da versão interlinear, a língua e a
revelação terão necessariamente de se conjugar sem tensões,
como no texto original. Na verdade, todos os grandes textos,
e em mais alto grau os sagrados, contêm nas entrelinhas a
sua tradução virtual. A versão interlinear do texto sagrado é o
arquétipo ou o ideal de toda a tradução.

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